quarta-feira, dezembro 13, 2006

VOCÊ SABE DESPIR UMA MULHER?

Despir um Corpo a Primeira Vez
(Affonso Romano de Sant'Anna)

Despir um corpo a primeira vez
é um conhecimento entre dois deuses
Não se pode profanar o instante
E os amantes devem manter o ritmo dos altares
Porque, embora nesses rituais haja sempre
panos e trajes para agradar o Olímpio,
é pra nudez total que o céu nos quer quebrar
As mãos tem que ter um compasso certo


Um andante ou laro de Bach nos gestos,
compondo a alegria dos homens e mulheres
As mãos, sobretudo, não podem se apressar
Com os olhos têm que aprender e, com a ponta
dos dedos, contemplar os acordes que irão
surgindo quando, peça por peça,
o corpo for se desvestindo ao pé do altar


Antes de se tocar com as mãos e lábios,
na verdade, já se tocou o corpo alheio
com um distraído olhar sempre envolvente
E ninguém toca um corpo impunimente


Despir um corpo a primeira vez, não pode ser
coisa de poeta desatento colhendo futilmente
a flor ofertada num abundante canteiro de poesia
Nem pode ser coisa de um puro microscopista
que olha as coisas sabiamente


Se tem que ser de sábio olhar,
que seja do botânico, porque esse saber aflorar
em cada espécie o que tem de mais secreto ou distante,
o que cada espécie sabe dar


Despir um corpo a primeira vez
é conhecer, pela primeira vez uma cidade
E os corpos das cidades tem portas para abrir,
jardins de pousar, torres e altitudes
que excitam a visitação


Quando os corpos se tocam por acaso,
como se estivesse indo em direções diferentes
o que ocorre é desperdício
Não se pode tocar um corpo impunimente


Para se tocar um corpo completa e profundamente,
num dado instante, os corpos têm que se convergir
E convergir com uma luz diferente
A descoberta do outro é isso, é convergência


Despir um corpo a primeira vez
é como despir um presente, por isso não se pode
desembrulhá-lo assim às pressas, embora a gula
nos precipite afoitos sobre a pele ofertada
Não se pode com as mãos infantis,
descompassadas, ir rasgando invólucros,
arrebentando cordões com gula que às crianças
só têm nas confeitarias antes da indigestão
Um corpo é surpresa sempre


E o que se vê nas praias,
nessa pública ostentação, nesse exercício coletivo
de nudez negaceada, em nada tira a eufórica
contentação do ato, quando os dedos vão
desatando botões e beijos,
e rompendo as presilhas das carícias


Despir um corpo a primeira vez
não é coisa de amador
Só se o amador for amador da arte de amar,
porque o corpo do outro não pode ter
a sensação de perda, mas a certeza de que
algo nele se somou, que ele é um objeto
luminoso que a outros deve iluminar


Um corpo a primeira vez,
no entanto, é frágil e pode trincar
em alguma parte
E os menos resistentes
se partem, quando aquele que os toca,
os toca apenas com cobiça e nunca
a generosa mansidão de quem veio
pela primeira vez, e sempre, para amar